Risco de micotoxinas na produção livre de antibióticos

19/11/2019

Nutrição Animal Tendência

Produzir animais sem o uso de antibióticos promotores de crescimento exige um cuidado maior com o manejo em geral, com os ingredientes da ração e com o controle dos riscos de contaminação por micotoxinas!

Antibióticos promotores de crescimento tem sido alvo de inúmeras discussões ao redor do mundo e sempre uma grande ferramenta para ativistas em “defesa dos animais” usar ao atacar a produção comercial de animais.

O que são e porquê usamos antibióticos promotores de crescimento (APC)?

APC são drogas que destroem e inibem bactérias e são administradas em uma dose sub-terapeutica. Ajudam a manter a performance e produtividade dos animais. Controlam patógenos como as E. Coli, Salmonella e clostridio. Melhoram a digestibilidade de nutrientes e reduzem o gasto de energia no controle da microflora. APC podem ser usados para tratar animais doentes, mas normalmente são usados para tratar sistemas de produção deficitários.

  • Maior risco de exposição a patógenos e bactérias
  • Enterite Necrótica.
  • Consumo de ração reduzido.
  • Desuniformidade e pior ganho de peso
  • Mortalidade
  • Maior vulnerabilidade para contaminantes de ração, como as micotoxinas.

Portanto para nos adaptarmos a esta nova realidade e conseguirmos produzir animais livres de promotores de crescimento, sem perdermos performance é importante manejarmos alguns fatores como por exemplo:

  • Concentração de bactérias no trato digestivo e cama.
  • Controle de coccidiose.
  • Maior incidência de diarreias e transito rápido.
  • Integridade intestinal piorada.
  • Trato digestivo saudável

Qualidade das Matérias Primas

A qualidade das matérias primas utilizadas na alimentação de animais livres de promotores deve ser ainda mais selecionada e controlada, pois estudos mostram que grãos de baixa qualidade tem seu valor nutricional afetado negativamente, quando comparado a um grão normal. Em pesquisas realizadas, a utilização de grãos contaminados por fungos causou um decréscimo no ganho de peso e aumento na conversão alimentar das aves. Quando presentes, as micotoxinas tem um papel importante na piora da saúde intestinal dos animais, ainda mais em produção livre de promotores de crescimento, estas podem afetar o trato gastrointestinal de diferentes maneiras:

  1. Aumentando o impacto de coccídeo
  2. Efeito negativo na mucosa intestinal
  3. Aumentando a colonização de patógenos
  4. Afetando a absorção de nutrientes
  5. Desequilíbrio da microflora intestinal
  6. Desregulação da imunidade e eficiência de vacinas

Pesquisas são constantemente realizadas avaliando estes fatores citados a cima, comprovando que as micotoxinas, mesmo quando em concentrações consideradas normais pela indústria podem acarretar prejuízos em performance e financeiros. A mucosa intestinal é a primeira a ser afetada quando ocorre uma contaminação por micotoxinas.

O impacto pode ser de diferentes maneiras:

  • Redução na altura de vilos
  • Redução na área de absorção de nutrientes Interferência no transporte de glucose, entre outros efeitos

Algumas micotoxinas de Fusarium podem acarretar um aumento na permeabilidade da barreira intestinal, pelo impacto na expressão genica de proteínas responsáveis por junções aderentes e oclusivas. Ao mesmo tempo, Fumonisinas podem ter um efeito no balanço de esfingolipídios, também afetando as junções oclusivas.

Também já foi constatado em pesquisas que a DON pode reduzir número de células de goblet, impactando a produção de mucina, afetando assim a barreira intestinal.

Controle de coccidiose, um grande desafio

Um grande desafio em aves produzidas sem o uso de antibióticos promotores de crescimento é o controle da Coccidiose, e as micotoxinas podem ser fatores exacerbantes das lesões causadas pela coccidiose. “Em pesquisas, aves contaminadas por Aflatoxinas tiveram uma recuperação mais lenta quando desafiados com E. tenella, da mesma maneira, uma combinação de micotoxinas de Fusarium alteraram a resposta imune induzida por uma contaminação por Eimeria, retardando a recuperação duodenal às lesões de coccídeo”. Mesmo quando se faz uso de um anti-coccidiano, como a Lasalocida, se pode constatar uma diminuição na sua funcionalidade quando combinado com um desafio por micotoxinas.

O controle do ecossistema e a microbiota em áreas de produção é extremamente importante na produção livre de antibióticos, uma vez que os animais precisam de um ambiente livre de desafios para poderem expressar seus potenciais genéticos. Porém, em pesquisas se constatou um aumento na contagem de oocistos tanto na mucosa do jejuno quanto na excreta de frangos desafiados com vacina de coccisiose e micotoxinas, aumento assim a pressão de contaminação para lotes futuros.

Micotoxinas também favoreceram a colonização por patógenos. Pesquisas mostraram um aumento da disseminação de E. Coli aos pulmões, fígado e bexiga em suínos contaminados por Aflatoxinas.

Em aves, se constatou uma maior translocação de Salmonella Typhimurium nas células epiteliais do intestino. E a presencao de micotoxinas levou a uma maior severidade das infecções por S. gallinarum em frangos de corte. Enterites necróticas, junto com a coccidiose, foi citada como um dos maiores desafios na produção livre de APC, e também se constatou efeito da DON e Fumonisinas na predisposição das aves à enterite necrótica por oferecer um substrato ideal para a proliferação de Clostrideo perfrigens. Já bem discutido e conhecido, o efeito das micotoxinas na imunidade é um fator de extrema importância na produção livre de promotores de crescimento, uma vez que aves imuno suprimidas estão mais suscetíveis a ataques de patógenos e as ferramentas para tratamento são limitadas. Em trabalhos realizados podemos ver as micotoxinas atuando de diferentes maneiras na resposta inflamatória a desafios. Como por exemplo:

  • DON dramaticamente aumenta a resposta inflamatória à S. typhimurium nas alças ileais com uma clara potencialização da expressão de Il-1, IL-8 ou IL-6. (Vandenbroucke et al., 2011)
  • Em suínos infectados por reovírus, mostrou-se uma incapacidade para limpar o vírus no intestino quando expostos a DON ou T2. Provavelmente devido uma diminuição da expressão de IFN-γ. (Li et al., 2006)
  • As micotoxinas alteram negativamente tanto a imunidade inata e adquirida, reduzindo a atividade fagocítica dos macrófagos e neutrófilos e a resposta humoral e celular mediada aos antígenos. (Liu et al., 2002)

Conclusões

Por último, também se constataram problemas respiratórios em porcos relacionados à contaminação por micotoxinas, sintomas que raramente se associa à qualidade das matérias primas.

“As fumonisinas podem interferir na função dos macrófagos localizados nos pulmões, diminuindo sua capacidade de eliminar bactérias patogênicas e partículas estranhas que atingem o sistema respiratório inferior por inalação.

Eles também podem piorar a gravidade das lesões pulmonares causadas por Mycoplasma hyopneumoniae. ”Em resumo, produzir animais sem o uso de antibióticos promotores de crescimento requer maior cuidado com o manejo geral, os ingredientes de ração e o controle de risco de micotoxinas.

As micotoxinas alteram a microbiota do intestino e sua mucosa, afetando negativamente o equilíbrio necessário para produzir animais sem o uso de antibióticos. As micotoxinas interferem na barreira intestinal, aumentando a permeabilidade do intestino, prejudicando a absorção de nutrientes, alterando a imunidade do intestino e, assim, facilitando a sobrevivência e persistência de patógenos no intestino. O gerenciamento dos riscos de contaminação por micotoxinas pode desempenhar um papel fundamental na obtenção de sucesso ao produzir animais livres de antibióticos promotores de crescimento.

 

Por Eng. Guilherme Bromfman

 

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